Foi a melhor coisa que eu poderia ter feito, o bar tinha banheiro e eu precisava mijar e no balcão Mário Babão! Puta que sorte, ele parecia estar numa concentração nervosa e demente. Pensei, ‘vou no banheiro e que se foda!’ Passei pela suas costas. Não sei se me viu ou não, e se me viu não se importou, talvez ele tivesse um ‘ponto fixo’ para daqui a pouco que eu, nem ninguém dali, fazia parte. Não queria entrar em sua mente, era lelé. A arma estava em suas costas, fui para o banheiro e me aliviei, não lavei as mãos e voltei. Agora poderia sentar atrás dele ou do lado, sentei do lado, pedi uma cerveja e um maço de cigarros.
Dei um gole mas não estava afim de beber, abri o maço de cigarros e acendi o cigarro, tinha duas banquetas que nos separavam. Ele olhou para mim, acenei num cumprimento balançando a cabeça, ele foi nervoso demais para que eu pudesse ter-lhe oferecido cigarro, e também me pareceu um sujeito que não aceite cigarros de estranhos. Um cuzão!
No meio da segunda cerveja e do sexto cigarro uma movimentação lá fora o tirou do transe, eu já tinha até desconfiado que ele não iria fazer porra nenhuma, que iria ficar ali até a manhã fissurado na merda do balcão. Só faria alguma coisa se ele fizesse, esse era meu lema ali. Mas a movimentação pelo visto era a chegada do cara. Ele se levantou e deu um passo para ver melhor, eu fingia ver tv, ele deu mais um passo, ajeitou a arma nas costas e voltou rapidamente, tirou deizão do bolso e falou ‘tá pago’, não entendi o porque, pois não bebeu nada, e outra quem ia fazer o que ele ia fazer, porque pagar? Caralho, que cara estranho.
Ele foi saindo e eu me levantei tirando deizão do bolso e deixei no pé da garrafa, peguei o cigarro e meti no bolso, fui saindo na moral, ele parou na ponta da calçada e eu na porta do bar. Duas ‘Vans’ pretas estavam paradas na porta onde eu falei com o segurança, alguns carros de imprensa, fotógrafos e jornalistas, não muitos, poucos fãs. Saíram várias pessoas de dentro delas, mas da segunda saiu o bacana, óculos escuros, uma camiseta preta apertadinha e calça de couro e botas, tudo bem viado.
Mário ameaçou atravessar a rua, conferiu a arma nas costas, esperou um carro passar, outro. O figura falava alguma coisa aos jornalistas lá na frente, tive a impressão de que nos viu. Uma moto foi o último obstáculo, o rapaz ameaçou ir, ia levando a mão nas costas para sacar a arma quando eu a arranquei do rego. Tomou um susto que quase caiu, foi engraçado mas não ri, achava o sujeito louco, e esperava qualquer coisa louca pro meu lado, dois tiros nas pernas eu daria, não mais que isso.
- Pra quê que é isso, heim?! Disse guardando sua arma e apontando a minha para ele: -Vem pra cá, saí daí! – Falei apontando a calçada, tive a impressão que ele ia aprontar uma cagada, respirei já preparando o sapeco, ele olhou pra mim e olhou pro carro que vinha passando, olhou mais uma vez para o figurão, que me parecia ver tudo – Nem tenta maluco! Jeitei o dedo no gatilho e ele veio pra calçada, não dei moleza – Vai vamô! Ele olhou para mim cheio de ódio, mas foi algo covarde e mesquinho que vi, que nem liguei. O nervosismo o deixou burro e estúpido. Esperei que ele perguntasse quem eu era. Mas não, foi caminhando feito um imbecil cordeiro – Vai sai fora! Caminha e não olha para trás! - E mirei um chute no rabo, mas não dei. Andei mais uns passos, parei e ele seguiu. Olhei pra trás e o figurão tinha entrado, olhei pra frente e o ‘Lelé’ tinha apertado o passo, fiquei parado guardei completamente a arma. Pronto.
Recebi uma massagem de uma ‘chinesinha’ que dormi relaxado a noite toda.

Pela manhã acordei com o telefone tocando, engano. Vesti uma calça e a mesma camisa, sentei na cama e procurei os sapatos, calcei-os. Me levantei e apertando o cinto fui até a pia lavar o rosto, mas desisti, a primeira água do dia sai amarela de ferrugem e estou evitando abrir. Passei pela banca, peguei um jornal e o Zéca não falou nada, ainda bem, paguei e atravessei a rua. Entrei no bar, pedi três pães de queijo e um café. Abri o jornal e fui direto no caderno cultural coisa que eu nunca faço, nem o leio. Procurei alguma coisa sobre o show, achei uma chamada não muito grande: “Ontem a noite mais uma página do rock n’ roll foi escrita” Coloquei o caderno junto com os outros, dobrei e pus ao lado do balcão. Mordi um pão de queijo e dei um gole no café.
***
Esses dias perguntei o nome do cara para Luiza (minha secretaria) e até anotei para não esquecer: Lou Breed.
Trecho do Romance: “Detetive Lázaro Lemos – Rápido, Barato e Garantido”
04/08/03
J.R.Bazilista
ps: Sempre imaginei essa parte do romance terminando ao som de Good bye Lady, do próprio Lou Reed.